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Quem mora na beira do rio já está fazendo a pergunta que se repete todos os anos nesta época: até onde o Solimões ainda vai baixar e quando essa vazante finalmente vai parar?
Com a chegada de outubro, a resposta começa a ficar mais próxima.
O rio Solimões entrou justamente no período mais crítico de sua vazante anual. Dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e previsões climáticas indicam que outubro será decisivo para definir o tamanho da estiagem de 2026.
Para Fonte Boa e municípios do Médio Solimões, ainda existe possibilidade de novas descidas antes de o rio alcançar seu ponto mínimo.
A notícia um pouco melhor é que, pelo comportamento histórico do Solimões, já estamos entrando na reta final da vazante.
Quando o rio pode começar a melhorar em Fonte Boa?
Não existe uma data exata em que seja possível afirmar que o Solimões começará definitivamente a subir.
O comportamento do rio depende principalmente das chuvas que caem milhares de quilômetros acima de Fonte Boa, incluindo o Alto Solimões e as regiões formadoras da bacia.
Mas os dados históricos permitem estabelecer uma janela.
Em Tabatinga, no Alto Solimões, o período das menores cotas historicamente ocorre entre setembro e outubro. O próprio Serviço Geológico do Brasil considera em suas projeções que, a partir da primeira quinzena de outubro, o processo de enchente normalmente já costuma estar iniciado naquela região.
A água que começa a chegar ao Alto Solimões leva algum tempo para produzir reflexos mais perceptíveis rio abaixo.
Por isso, considerando o comportamento histórico da bacia, Fonte Boa poderá começar a apresentar sinais mais consistentes de estabilização ou recuperação entre a segunda quinzena de outubro e o começo de novembro.
Isso não significa que o rio necessariamente começará uma subida contínua nesse período.
Podem ocorrer os conhecidos repiquetes: o rio sobe alguns centímetros, estabiliza e pode voltar a baixar antes que a enchente se consolide.
Portanto, para o ribeirinho de Fonte Boa, a mensagem neste início de outubro é: ainda não acabou a vazante, mas estamos entrando no período em que a situação tende a começar a virar.
Fonte Boa ainda pode ver o Solimões baixar
Em setembro, o monitoramento do SGB mostrava que o Solimões continuava em processo de vazante em toda a calha.
No início daquele mês, a estação de Fonte Boa registrava 14,57 metros, depois de uma redução de 57 centímetros em uma semana.
Apesar da forte descida, o SGB classificava naquele momento o comportamento da bacia do Solimões como dentro da normalidade para o período.
Monitoramentos posteriores continuaram indicando a vazante na calha, mas ainda dentro do comportamento esperado para esta época do ano.
Isso é importante porque diferencia o cenário atual de uma afirmação de que Fonte Boa necessariamente enfrentará uma seca recorde.
Até o momento, os dados disponíveis não permitem fazer essa afirmação.
Mais abaixo, a vazante demora mais para terminar
O comportamento do Solimões funciona como uma espécie de onda descendo a bacia.
Enquanto no Alto Solimões as menores cotas geralmente aparecem entre setembro e outubro, em estações mais abaixo a situação muda.
Segundo o SGB, em Itapéua, no município de Coari, e em Manacapuru, as menores cotas históricas costumam ocorrer entre outubro e novembro.
Isso ajuda a entender por que o rio pode começar a apresentar recuperação primeiro na região de Tabatinga enquanto continua baixando durante algum tempo no Médio e Baixo Solimões.
Outubro ainda preocupa por causa das chuvas
Existe, entretanto, um fator que exige cautela.
A previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) para outubro de 2026 aponta tendência de chuvas abaixo da média em setores da Região Norte.
Para o trimestre de outubro, novembro e dezembro, também existem áreas da Região Norte com previsão de precipitação abaixo da média histórica.
Além disso, órgãos federais acompanham em 2026 a atuação do El Niño, fenômeno que pode alterar a distribuição das chuvas e aumentar o déficit hídrico em partes do país.
Isso significa que a recuperação dos rios pode não ocorrer rapidamente.
Mesmo que o Alto Solimões comece a reagir nas próximas semanas, será necessário acompanhar o volume e a distribuição das chuvas nas cabeceiras e nos principais afluentes.
Para quem vive no interior, centímetros fazem diferença
Para quem observa o rio apenas de longe, uma queda de alguns centímetros pode parecer pouca coisa.
Para quem vive no interior do Amazonas, é diferente.
Cada centímetro pode representar mudança no acesso a uma comunidade, aparecimento de bancos de areia, dificuldade para pequenas embarcações, necessidade de alteração de rotas e aumento do tempo de viagem.
Com a vazante, paranás, lagos, furos e igarapés podem ficar cada vez mais difíceis de acessar.
O impacto chega ao transporte de passageiros, mercadorias, combustível e alimentos e atinge diretamente pescadores, agricultores e famílias das comunidades ribeirinhas.
Em alguns locais, a embarcação deixa de chegar próximo das casas e o restante do percurso passa a ser feito a pé, muitas vezes carregando compras, botijas de gás, água e outros produtos.
Então, quando vem o alívio?
Com base no comportamento histórico do rio e nas informações disponíveis neste início de outubro, é possível resumir assim:
Até aproximadamente a metade de outubro: a vazante ainda merece atenção e o Solimões pode continuar baixando em Fonte Boa.
Da segunda quinzena de outubro em diante: aumenta a possibilidade de estabilização e dos primeiros reflexos da recuperação iniciada no Alto Solimões.
Entre o fim de outubro e novembro: cresce historicamente a possibilidade de a vazante perder força e começar a transição para o novo ciclo de enchente no Médio Solimões.
Mas essa é uma estimativa baseada no comportamento histórico da bacia, e não uma previsão de que o rio obrigatoriamente começará a subir em determinada data.
As chuvas das próximas semanas serão decisivas.
O rio ainda manda na vida do Solimões
Em Fonte Boa, Jutaí, Uarini, Tefé, Coari e tantos outros municípios da região, não é o calendário que determina completamente a rotina das pessoas.
É o rio.
Quando sobe, muda a vida. Quando baixa, muda novamente.
Outubro chega trazendo dificuldades, praias cada vez maiores, barrancos expostos e caminhos que antes eram feitos de canoa e agora começam a ser percorridos a pé.
Mas também marca a aproximação do fim de mais um ciclo.
Se o comportamento histórico se confirmar e as chuvas responderem nas cabeceiras, a segunda metade de outubro poderá começar a trazer os primeiros sinais de que o Solimões está chegando ao fim da vazante em sua parte mais alta, movimento que, posteriormente, deverá alcançar Fonte Boa.
Até lá, a palavra é acompanhamento.
O Portal Fonte Boa em Tempo seguirá monitorando os boletins oficiais e o comportamento do rio Solimões para informar quando os primeiros sinais mais seguros da enchente começarem a aparecer.