Adicione nosso site às suas fontes preferidas para acompanhar nossas notícias. 📰
Mais de 200 passageiros viveram quase três horas de terror na noite de quinta-feira (10), quando o ferry boat Rosa de Saron foi interceptado por criminosos fortemente armados nas proximidades de Alvarães, no Médio Solimões. O ataque, além da violência contra passageiros e tripulantes, expõe novamente uma preocupação antiga de quem vive e trabalha às margens dos rios do Amazonas: quem protege aqueles que precisam enfrentar centenas de quilômetros de rio para viajar, trabalhar ou transportar mercadorias?
Segundo o relato de um passageiro divulgado pelo BNC Amazonas, aproximadamente dez homens armados com fuzis chegaram em duas lanchas rápidas e invadiram a embarcação por volta das 22h20. O grupo permaneceu no ferry boat até aproximadamente 1h da madrugada.
Durante a ação, os criminosos teriam efetuado disparos, ameaçado passageiros e tripulantes e submetido uma mulher da tripulação a choques elétricos. Até o momento, não havia informação oficial sobre o estado de saúde da vítima nem sobre outros possíveis feridos.
“Ficamos três horas sob a mira de fuzis”, relatou o passageiro.
O grupo fez um verdadeiro arrastão dentro da embarcação. Foram levados dinheiro, joias, celulares, notebooks e outros objetos pessoais. Os criminosos também roubaram o equipamento da Starlink utilizado para fornecer internet aos passageiros e à tripulação.
A testemunha afirmou ainda que os invasores perguntavam por drogas, indicando que a ação poderia estar relacionada não apenas ao roubo dos passageiros, mas também à procura de algum eventual carregamento ilícito.
O Rosa de Saron havia saído de Japurá na quarta-feira (9), com destino a Manaus, e passou por Maraã antes de seguir viagem pelo Solimões. Era, segundo o relato, a primeira viagem da embarcação nesse percurso.
Após o ataque, o ferry boat seguiu viagem e posteriormente esteve na Base Arpão, onde passou por procedimentos de inspeção das forças de segurança.
Vídeo postado por um dos passageiros:
O Solimões virou rota estratégica para o crime
O ataque ao Rosa de Saron não pode ser analisado apenas como um assalto isolado.
O Rio Solimões é uma das principais artérias de transporte do Amazonas. Por suas águas circulam diariamente barcos de passageiros, embarcações de carga, pescadores, comerciantes, ambulâncias, balsas e moradores de comunidades que dependem exclusivamente do transporte fluvial.
Ao mesmo tempo, a própria geografia amazônica oferece condições favoráveis para a atuação de organizações criminosas.
São rios extensos, com inúmeros braços, lagos, furos, igarapés e áreas de mata que podem ser utilizadas para esconder embarcações e dificultar a localização dos criminosos.
Estudo publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta justamente que, na Amazônia, os rios funcionam como verdadeiras “rodovias naturais” para o crime organizado, enquanto extensas áreas permanecem com baixa presença estatal.
É nesse cenário que os chamados “piratas dos rios” ganharam espaço.
O que antes poderia ser associado a pequenos roubos praticados de forma ocasional passou, em determinados trechos, a envolver quadrilhas organizadas, embarcações velozes, armas de grosso calibre e possível conexão com outras atividades criminosas, especialmente o tráfico de drogas e armas.
Em julho deste ano, por exemplo, uma operação da Base Arpão 2 apreendeu aproximadamente 603 quilos de skunk no Rio Solimões, em Coari. Segundo a ocorrência divulgada à época, houve inclusive relato de confronto entre tripulantes de embarcações pesqueiras e supostos piratas que atuam na região.
O medo de quem precisa viajar pelo rio
Para o morador do interior, o rio não é apenas uma paisagem.
É estrada, transporte público, caminho para o hospital, acesso ao comércio e ligação com outros municípios.
Quando uma embarcação de passageiros é atacada por homens armados com fuzis, o impacto ultrapassa as vítimas daquele episódio.
Fica o medo de viajar.
Famílias passam a temer embarcar em barcos de linha durante a noite. Trabalhadores ficam receosos de transportar mercadorias. Pescadores e pequenos comerciantes enfrentam o risco de serem confundidos com alvos de grupos criminosos.
E a pergunta volta a aparecer entre ribeirinhos e operadores do transporte fluvial:
Quem está patrulhando o rio?
Não basta ter bases: é preciso presença onde o crime acontece
O Amazonas avançou na criação de estruturas permanentes de segurança fluvial.
A Secretaria de Segurança Pública informa que o Estado possui bases fluviais instaladas em pontos estratégicos, entre elas as estruturas Arpão, Tiradentes e outras unidades voltadas ao combate ao tráfico de drogas, armas, crimes ambientais e roubos nas hidrovias.
As bases atuam de forma integrada com diferentes órgãos de segurança. Dados oficiais divulgados em março apontavam que as unidades fluviais já haviam auxiliado na apreensão de mais de 197 toneladas de entorpecentes desde o início das operações.
O problema é que um rio do tamanho do Solimões não termina na porta de uma base policial.
A presença de uma unidade estratégica em determinado ponto não significa que todos os quilômetros seguintes estejam permanentemente protegidos.
É justamente nos intervalos entre os pontos de fiscalização, em áreas isoladas e durante a noite, que os criminosos podem encontrar oportunidades para atacar.
A cobrança por patrulhamento permanente
É nesse ponto que cresce a cobrança das populações ribeirinhas, empresas de navegação e trabalhadores que dependem dos rios.
A reclamação não significa necessariamente ausência absoluta das forças de segurança. A própria Marinha do Brasil informa que realiza operações, ações de fiscalização e atividades integradas com órgãos estaduais e federais na Amazônia. Em 2026, o Comando do 9º Distrito Naval também anunciou medidas envolvendo meios navais, efetivo e ações integradas na região.
Mas a realidade enfrentada por quem está dentro de uma embarcação atacada é outra.
Quando dez homens chegam em duas lanchas rápidas, armados com fuzis, e permanecem quase três horas dentro de um ferry boat com mais de 200 passageiros, a sensação de segurança desaparece.
O episódio mostra que o desafio não é apenas realizar operações depois que o crime acontece.
É criar mecanismos capazes de impedir que a abordagem aconteça.
Isso significa ampliar inteligência, monitoramento, patrulhamento móvel, comunicação entre embarcações e forças de segurança, além de fortalecer pontos estratégicos ao longo das principais rotas.
Marinha, Estado e União precisam atuar de forma integrada
A segurança dos rios amazônicos não pode ser tratada como responsabilidade isolada de uma única instituição.
A Marinha possui atribuições relacionadas à segurança da navegação, fiscalização e atuação dentro de suas competências legais. As polícias estaduais atuam na prevenção e repressão criminal. A Polícia Federal entra em crimes de competência federal e nas ações relacionadas ao crime organizado e tráfico interestadual ou internacional.
E, diante da dimensão das rotas amazônicas, a integração entre essas forças se torna fundamental.
O próprio modelo da Base Arpão demonstra que operações conjuntas podem produzir resultados. Pesquisadores que estudaram a atuação da estrutura no Solimões apontam que a presença integrada das forças de segurança também influencia a sensação de segurança das comunidades ribeirinhas.
Mas o ataque ao Rosa de Saron deixa uma mensagem difícil de ignorar:
ainda existem espaços onde o criminoso consegue chegar primeiro que o Estado.
O rio não pode ser terra sem lei
O Amazonas possui uma das maiores redes hidrográficas navegáveis do planeta. É impossível colocar uma embarcação policial em cada curva do Solimões.
Mas também não é aceitável que passageiros sejam obrigados a viajar sob o medo de serem interceptados por criminosos armados.
O desafio é encontrar um modelo permanente de segurança capaz de combinar inteligência, tecnologia, patrulhamento, bases estratégicas, comunicação e resposta rápida.
O ataque ao Rosa de Saron mostra que a pirataria fluvial deixou de ser um problema distante.
Ela entrou dentro de um ferry boat com mais de 200 pessoas.
Entrou nos camarotes, levou dinheiro, celulares e computadores, roubou equipamentos e, segundo testemunhas, submeteu uma tripulante a choques elétricos.
E deixou uma pergunta para as autoridades:
Até quando passageiros, ribeirinhos e trabalhadores terão que navegar pelo Solimões com medo de encontrar piratas no caminho?
Portal Fonte Boa em Tempo — informação com precisão, confiança e compromisso com a população do Amazonas.