A Copa da Floresta não é apenas uma competição de futebol. Para milhares de amazonenses que vivem nos municípios do interior, ela representa aquilo que a Copa do Mundo representa para o restante do planeta: paixão, identidade, pertencimento e orgulho regional.
Ao longo dos anos, desde os tempos do Campeonato Intermunicipal, passando pela Copa dos Rios e chegando à atual Copa da Floresta, uma tradição se consolidou dentro e fora das quatro linhas. Além dos atletas que saem das sedes municipais e das comunidades ribeirinhas para defender suas seleções, existe um outro exército que trabalha silenciosamente para fazer o espetáculo chegar aos lugares mais distantes do Amazonas: os veículos de comunicação do interior.

São portais, rádios, canais digitais e equipes independentes que, por iniciativa própria, investem recursos, equipamentos, combustível, hospedagem, alimentação e muitas horas de trabalho para levar as imagens e informações da competição aos torcedores espalhados pelos rios, comunidades e cidades amazonenses.
Durante anos, esse trabalho foi realizado sem qualquer custo para a Federação Amazonense de Futebol (FAF). Pelo contrário. Os portais regionais ajudaram a promover a competição, divulgar patrocinadores, fortalecer a marca da federação e ampliar o alcance do futebol amador amazonense.
Por isso, é importante deixar claro: a discussão não é sobre a comercialização dos direitos de transmissão.
É natural e até desejável que o futebol do interior alcance um nível de profissionalização que permita a venda de direitos de imagem e transmissão. Isso demonstra crescimento, valorização do produto esportivo e interesse do mercado. A parceria firmada pela FAF com uma emissora de televisão de alcance estadual é um sinal de que a Copa da Floresta está se tornando cada vez mais relevante.
O problema não está na comercialização.
O problema está na forma como tudo foi conduzido.
A PRIMEIRA NOTA OFICIAL

No dia 5 de maio de 2026, a FAF publicou a Nota Oficial nº 01/2026.
O documento foi distribuído às ligas, coordenações regionais e sedes da competição. A nota estabelecia que apenas a abertura da competição e a grande final teriam transmissão exclusiva da emissora detentora dos direitos.
A interpretação era clara.
Todas as demais fases, incluindo as semifinais regionais, permaneceriam liberadas para cobertura e transmissão pelos meios de comunicação dos municípios participantes.
Foi baseado nessa informação oficial que diversos veículos começaram a organizar suas operações para a semifinal da Chave Solimões, disputada em Anori.
Entre eles estavam o Portal Fonte Boa em Tempo e a TV Piracema, de Amaturá.
As equipes investiram recursos financeiros, mobilizaram profissionais, organizaram deslocamentos e assumiram compromissos com patrocinadores e seguidores.
Tudo dentro das regras estabelecidas pela própria federação.
A MUDANÇA A DOIS DIAS DA COMPETIÇÃO

A surpresa veio quando faltavam apenas dois dias para o início da semifinal.
Uma nova nota oficial foi publicada.
O texto mantinha praticamente o mesmo conteúdo da nota anterior, mas acrescentava um detalhe fundamental: a fase semifinal passava a integrar o pacote de exclusividade da emissora detentora dos direitos.
Na prática, os portais que haviam se programado com base na orientação anterior foram impedidos de realizar as transmissões.
O problema se agravou porque muitos profissionais já estavam em deslocamento ou haviam assumido compromissos financeiros irreversíveis.
A decisão gerou prejuízos econômicos, operacionais e institucionais para veículos que confiaram nas informações oficiais inicialmente divulgadas pela própria FAF.
O QUE ERA PARA SER UM DIÁLOGO VIROU CONSTRANGIMENTO
Ao chegarem em Anori, representantes dos portais buscaram esclarecimentos junto à coordenação de comunicação da sede.
Segundo relatos dos profissionais envolvidos, o responsável pela área, Sr. Roberto Pinheiro Peggy, adotou postura considerada excessivamente rígida e intimidatória.
De acordo com os comunicadores, foi informado que não apenas as transmissões estavam proibidas, mas até mesmo o compartilhamento do link oficial poderia gerar problemas.
Também teriam sido impostas restrições severas à cobertura jornalística, impedindo transmissões ao vivo e limitando o trabalho dos profissionais fora da área interna do estádio.
Diante da situação, Portal Fonte Boa em Tempo e TV Piracema elaboraram um documento formal relatando os prejuízos causados pela mudança repentina das regras e solicitando providências da FAF.
O requerimento foi entregue ao representante da federação durante a competição.
Até o encerramento da semifinal, nenhuma resposta foi apresentada.
AMEAÇAS E INTIMIDAÇÕES
O episódio tornou-se ainda mais grave quando as equipes tentaram realizar transmissões alternativas.
A proposta dos portais não era exibir as partidas integralmente nem descumprir a determinação da FAF.
A intenção era realizar cobertura jornalística em formato adaptado, utilizando câmeras posicionadas de forma invertida, sem mostrar o campo de jogo e sem transmitir os 90 minutos da partida.
Mesmo assim, segundo os relatos apresentados pelos profissionais, o coordenador teria realizado abordagens repetidas com tom considerado intimidatório.
As denúncias apontam ameaças de recolhimento de equipamentos, retirada das equipes do estádio, acionamento da polícia e até prisão de profissionais que exerciam atividades de reportagem e narração esportiva.
Caso confirmadas, tais atitudes representam uma situação extremamente preocupante para a liberdade de imprensa e para o exercício da atividade jornalística em eventos esportivos.
O APAGÃO NA ÁREA DE IMPRENSA
O episódio mais controverso ocorreu na última rodada da semifinal.
Segundo os veículos envolvidos, a energia elétrica do espaço destinado à imprensa foi desligada justamente durante o jogo entre Benjamin Constant e Amaturá, partida decisiva para a definição dos classificados.
Sem acesso à energia, os equipamentos utilizados pelos portais ficaram inutilizados.
A TV Piracema e o Portal Fonte Boa em Tempo ficaram impossibilitados de realizar até mesmo a cobertura alternativa que vinha sendo desenvolvida.
O Portal Fonte Boa em Tempo conseguiu manter contato com seu público apenas por meio de uma transmissão improvisada realizada através de um aparelho celular na plataforma Facebook.
O INTERIOR NÃO PODE SER TRATADO COMO INIMIGO
O que mais chama atenção em toda a situação é que os veículos envolvidos nunca questionaram a existência dos direitos de transmissão.
O questionamento sempre foi outro.
Por que alterar as regras a apenas dois dias do início da semifinal?
Por que não estabelecer um período de transição?
Por que não dialogar com os veículos que ajudaram a construir a visibilidade da competição ao longo dos anos?
E, principalmente, por que tratar parceiros históricos da Copa da Floresta como adversários?
Durante toda a competição, os portais do interior divulgaram gratuitamente a Copa da Floresta, os patrocinadores, as marcas parceiras e as ações da FAF.
Fizeram isso por amor ao esporte e compromisso com suas comunidades.
Não receberam recursos financeiros da federação.
Não receberam apoio logístico.
Não receberam participação comercial.
Ainda assim, contribuíram decisivamente para transformar a Copa da Floresta em um dos maiores eventos esportivos do interior do Amazonas.
A FAF PRECISA SE MANIFESTAR
O futebol amazonense cresce quando há diálogo.
O futebol amazonense cresce quando a federação, os clubes, as ligas, os patrocinadores e a imprensa caminham na mesma direção.
A profissionalização da competição é bem-vinda.
Mas ela não pode acontecer à custa do desrespeito aos profissionais que ajudaram a construir a história da própria competição.
O Portal Fonte Boa em Tempo e a TV Piracema aguardam até hoje uma resposta oficial ao requerimento protocolado durante a semifinal de Anori.
Mais do que uma explicação, os veículos esperam que situações semelhantes não voltem a ocorrer.
Porque a Copa da Floresta pertence ao povo do interior.
E o interior merece respeito.
