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A realização de serviços de dragagem no Rio Solimões, nas proximidades da comunidade Nossa Senhora Aparecida, conhecida como Prainha, no município de Careiro da Várzea, na Região Metropolitana de Manaus, provocou uma série de questionamentos sobre os possíveis impactos ambientais da intervenção e os riscos para aproximadamente 180 famílias que vivem às margens do rio.
A preocupação dos moradores ganhou um novo elemento: o Rio Solimões já apresenta sinais de recuperação do nível das águas em diferentes pontos de seu percurso, indicando a transição gradual do período de vazante para o de enchente.
Embora a elevação do rio não signifique, necessariamente, o desaparecimento dos bancos de areia que dificultam a navegação, o movimento natural das águas levanta uma pergunta: a urgência da dragagem continua sendo a mesma diante da mudança no comportamento do rio?
Para os ribeirinhos, a discussão vai além da passagem das embarcações. O temor é que a retirada de sedimentos em áreas próximas às residências possa agravar a erosão das margens, interferir na dinâmica natural das águas e comprometer a segurança das famílias.
Moradores temem perder suas casas
A chegada dos equipamentos de dragagem à comunidade provocou apreensão entre os moradores, que convivem há anos com o fenômeno conhecido como terras caídas, caracterizado pelo desmoronamento de barrancos e margens dos rios amazônicos.
A líder comunitária Antônia Rosely Reis manifestou preocupação com a retirada de areia próxima às residências, temendo que a intervenção comprometa a estabilidade dos barrancos.
O ex-vereador Arnaldo Bandeira também alertou para os riscos de desmoronamentos, principalmente durante a madrugada, quando famílias inteiras, incluindo crianças e idosos, estão dormindo.
Segundo os moradores, algumas casas já precisaram ser afastadas das margens em outras ocasiões devido ao avanço natural da erosão.
A comunidade não questiona a importância do transporte fluvial. O que pede são garantias de que a intervenção não aumentará os riscos já existentes.
DNIT defende dragagem para garantir travessia
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) sustenta que a dragagem é necessária para restabelecer as condições de navegabilidade na travessia entre o Porto da Ceasa, em Manaus, e Careiro da Várzea, trecho que integra a ligação rodoviária da BR-319.
Segundo o órgão, a estiagem provocou o surgimento de bancos de areia que dificultam a passagem das balsas utilizadas no transporte de veículos, passageiros e mercadorias.
A situação levou à declaração de emergência no trecho, por meio da Portaria nº 5.208, de 19 de outubro de 2026.
O DNIT argumenta que a intervenção possui caráter emergencial e busca evitar a interrupção de uma ligação fundamental para o abastecimento e a mobilidade da população.
Entretanto, os moradores defendem a avaliação de uma rota alternativa que, segundo Arnaldo Bandeira, acrescentaria aproximadamente cinco minutos à travessia e evitaria a retirada de sedimentos nas proximidades das casas.
A viabilidade técnica dessa alternativa ainda precisa ser demonstrada pelos órgãos responsáveis.
Licenciamento ambiental gera divergência
Outro ponto que ampliou a polêmica foi a situação do licenciamento ambiental.
Em reportagem publicada pelo jornal A Crítica, no dia 31 de outubro, o DNIT confirmou a execução de serviços de dragagem e justificou a intervenção pelo caráter emergencial da travessia.
O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), entretanto, informou que havia um pedido de licenciamento ambiental em análise.
Na manifestação divulgada pelo jornal, o órgão estadual afirmou que, conforme sua apuração, havia ocorrido apenas movimentação de máquinas e equipamentos, sem início efetivo da dragagem.
A informação contrasta com relatos de moradores e com a posição apresentada pelo DNIT.
Segundo a reportagem, os trabalhos chegaram a ser interrompidos após questionamentos da comunidade e da Prefeitura de Careiro da Várzea.
O IPAAM também informou que a atividade somente poderia ser iniciada após o cumprimento dos procedimentos necessários à validade da licença ambiental.
A divergência reforça a necessidade de esclarecer quais autorizações eram exigíveis, quais documentos estavam disponíveis e em que condições os serviços foram iniciados.
Defensoria Pública entra no caso
A preocupação dos moradores chegou à Defensoria Pública do Estado do Amazonas.
Durante atendimento coletivo realizado no dia 30 de outubro, representantes da comunidade relataram riscos de desmoronamento, presença de óleo na água e possíveis prejuízos à atividade pesqueira.
Os defensores públicos Carlos Almeida Filho e Roger Queiroz acompanharam as reclamações.
A Defensoria encaminhou um pedido urgente de informações ao IPAAM, solicitando esclarecimentos sobre o licenciamento, os responsáveis pela intervenção e os possíveis riscos ambientais e à segurança das famílias.
A instituição também pediu que fossem avaliadas medidas preventivas, incluindo eventual suspensão dos serviços, caso fossem constatadas irregularidades ou riscos à população.
Moradores ainda levantaram suspeitas sobre a destinação da areia retirada do rio.
Até o momento, não há comprovação de comercialização irregular do material nem laudos que estabeleçam relação entre a dragagem e as denúncias de óleo na água ou morte de peixes.
O Solimões começou a subir: a dragagem continua urgente?
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A recuperação sazonal do nível das águas acrescenta uma questão importante à discussão.
O Solimões passa por ciclos naturais de cheia e vazante que modificam continuamente suas condições de navegação.
Durante a estiagem, bancos de areia podem comprometer o transporte fluvial. Com a elevação das águas, determinados trechos voltam gradualmente a apresentar maior profundidade.
Entretanto, a recuperação do nível do rio não ocorre de maneira uniforme, nem elimina automaticamente obstáculos à navegação.
Por isso, a pergunta que precisa ser respondida tecnicamente pelo DNIT é se as condições que motivaram a emergência continuam presentes na mesma intensidade.
Foram realizados novos levantamentos de profundidade após os primeiros sinais de subida das águas?
O volume de sedimentos previsto para retirada continua sendo necessário?
A possibilidade de utilizar uma rota alternativa foi efetivamente estudada?
São esclarecimentos importantes para avaliar a continuidade, a extensão e a urgência da intervenção.
A sabedoria dos antigos moradores do Solimões
Existe um conhecimento que não pode ser ignorado nessa discussão: a experiência de quem nasceu e envelheceu às margens dos rios amazônicos.
Pescadores e ribeirinhos acompanham há décadas o movimento das águas, o desaparecimento de ilhas, o surgimento de bancos de areia e as mudanças nas entradas de lagos, furos e paranás.
Quem conhece o Solimões sabe que o rio está em permanente transformação.
Ilhas desaparecem de um lugar e surgem em outros pontos. Margens são levadas pela correnteza, enquanto grandes volumes de sedimentos se acumulam mais adiante.
Esse movimento faz parte da dinâmica natural dos grandes rios amazônicos.
O temor manifestado por moradores antigos é que a retirada artificial e concentrada de sedimentos possa interferir nessa dinâmica, alterando correntes, favorecendo a erosão em determinados locais ou modificando ambientes importantes para a pesca.
Essas preocupações não representam comprovação de que as atuais dragagens estejam provocando tais consequências.
Mas merecem atenção e investigação científica.
A experiência de quem conhece o rio há 50 ou 60 anos não substitui os estudos técnicos, mas pode indicar onde esses estudos precisam olhar.
A pesca também preocupa
Outro ponto sensível envolve os recursos pesqueiros.
No Solimões, a pesca representa alimento e renda para milhares de famílias.
Pescadores tradicionais conhecem áreas utilizadas pelos peixes para alimentação, reprodução e deslocamento, além das mudanças provocadas pelos ciclos de cheia e vazante.
Intervenções no leito dos rios podem provocar alterações locais na turbidez da água e na distribuição de sedimentos, dependendo das características e da intensidade da atividade.
Por isso, a população precisa saber se foram realizados estudos sobre os possíveis efeitos da dragagem nos ambientes aquáticos próximos às comunidades.
Também é necessário esclarecer se existe acompanhamento da qualidade da água e das condições de pesca antes, durante e depois das intervenções.
O alerta que vem de Juruti, no Pará
A preocupação com possíveis impactos ambientais das dragagens não é exclusiva do Amazonas.
Em Juruti, no oeste do Pará, o Ministério Público Federal questionou operações de dragagem realizadas no Rio Amazonas, apontando irregularidades no licenciamento e registrando denúncias de impactos socioambientais sobre comunidades tradicionais.
Entre os problemas relatados estavam alterações nas condições de lagos e igarapés, dificuldades para a pesca e prejuízos a atividades ribeirinhas.
É importante destacar que as intervenções em Juruti e no Careiro da Várzea são empreendimentos diferentes, com características próprias.
O caso paraense não comprova que os mesmos danos estejam ocorrendo no Solimões.
Entretanto, demonstra a importância da fiscalização, dos estudos ambientais e da transparência na execução de serviços que interferem no leito dos grandes rios amazônicos.
Navegação e preservação precisam caminhar juntas
Não se discute a importância da travessia entre Manaus e Careiro da Várzea.
A ligação é fundamental para o transporte de passageiros, veículos, alimentos, combustíveis e outras mercadorias, especialmente para os municípios atendidos pela BR-319.
Da mesma forma, não se pode ignorar a segurança das famílias que vivem próximas aos pontos de intervenção.
O desafio é garantir que as duas necessidades sejam atendidas.
A manutenção da navegabilidade não deve dispensar a avaliação dos riscos ambientais e sociais. Por outro lado, a existência de preocupações ambientais não significa que toda dragagem seja desnecessária ou prejudicial.
O caminho está na apresentação de estudos, na fiscalização e na adoção de medidas que conciliem transporte e preservação.
O rio está mudando. E o planejamento das obras?
Com o Solimões entrando gradualmente em seu período de recuperação das águas, a discussão sobre a dragagem ganha uma dimensão ainda mais importante.
Se as condições do rio estão mudando, o planejamento da intervenção também está sendo reavaliado?
A resposta precisa considerar medições atualizadas, segurança da navegação, estabilidade das margens, riscos ambientais e as alternativas apresentadas pelos moradores.
Para as aproximadamente 180 famílias da Prainha, a preocupação é concreta: garantir que suas casas e seu modo de vida não sejam colocados em risco.
Para o poder público, a responsabilidade é demonstrar que as medidas adotadas são tecnicamente justificadas e ambientalmente adequadas.
O Rio Solimões não é apenas uma estrada de água. É fonte de alimento, renda, cultura e sobrevivência para milhares de famílias.
O Portal Fonte Boa em Tempo considera necessário que o DNIT e os órgãos ambientais esclareçam a situação do licenciamento, apresentem os estudos de segurança da intervenção e informem se a recuperação do nível das águas foi considerada na avaliação da continuidade dos serviços.
O espaço permanece aberto para manifestação dos órgãos responsáveis.